Há problemas que a política tradicional demora a enxergar porque eles não nascem em Brasília, mas dentro das nossas casas. Nos últimos meses, decidi percorrer Mato Grosso com o seminário “As Três Pragas da Modernidade”. Passei por Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis, Lucas do Rio Verde, Primavera do Leste e Tangará da Serra. O que ouvi nessas cidades confirmou uma convicção que carrego: estamos diante de uma crise silenciosa que está adoecendo nossos jovens, destruindo o orçamento doméstico e desestruturando as famílias brasileiras.
Essas três pragas, o uso excessivo de telas, o avanço das drogas e o endividamento provocado pelas apostas online (bets), não são problemas isolados. A ciência nos mostra que elas compartilham o mesmo mecanismo de captura. A neurobiologia já reconhece que o funcionamento cerebral de um adicto por jogos de aposta é idêntico ao da dependência química. A cada aposta no celular, o cérebro libera dopamina não apenas na vitória, mas na incerteza do resultado. É o mecanismo do “quase ganho”, que sequestra o sistema de recompensa e transforma o que é vendido como entretenimento em um ralo constante de renda.
Os números são assustadores. O Brasil atingiu em 2026 o maior índice de endividamento da sua história, com 80,9% das famílias possuindo algum tipo de dívida. O Tribunal de Contas da União estima que as plataformas ilegais de apostas movimentem até R$ 40 bilhões por ano no país. Em Rondonópolis, ouvi o relato cortante de um jovem estudante de Direito, Luiz Fernando, que contou sobre um familiar que, em poucos meses, viu sua vida organizada ser consumida pelas bets. É o ciclo do endividamento rápido, que compromete de 10% a 50% do orçamento familiar e empurra o cidadão para os juros compostos altíssimos do cartão de crédito.
O mesmo mecanismo de vício atinge nossas crianças por meio das telas. O uso descontrolado de celulares na infância não é apenas uma questão de comportamento, mas de saúde pública. Estudos indicam que o excesso de tempo diante das telas reduz drasticamente as interações face a face, ocasionando dificuldades de aprendizado, falta de concentração e aumento da ansiedade. Como bem alertou a professora Eveline Batistela, durante nosso seminário em Tangará da Serra, o excesso de telas está roubando a infância e comprometendo o futuro de uma geração inteira.
E, no extremo dessa cadeia de adoecimento, temos as drogas, o colapso silencioso da juventude. O encarceramento em massa de jovens por delitos relacionados às drogas alimenta a logística das facções dentro dos presídios, transformando um problema de saúde pública em uma crise de segurança de grande escala. Em Cuiabá, o depoimento emocionado de Admar Valentim nos lembrou que a normalização do vício começa cedo, muitas vezes dentro de casa, e que precisamos de coragem para enfrentar essa realidade.
A boa notícia é que o Estado brasileiro começou a agir em relação a um dos problemas mais urgentes. Nas últimas semanas, o Governo Federal deu passos decisivos que dialogam diretamente com o que temos defendido em Mato Grosso. O presidente Lula assinou o Decreto nº 13.033/2026, que promove o asfixiamento financeiro das bets ilegais. A medida determina o bloqueio imediato de recursos dessas empresas clandestinas, transferindo os valores para o Fundo Nacional de Segurança Pública. É o cerco se fechando contra quem opera à margem da lei.
Além disso, como relator do PLN 17/2026 no Congresso Nacional, tive a oportunidade de aprovar o crédito que viabiliza o Desenrola Adimplentes. Esse programa permite que trabalhadores informais renegociem suas dívidas com juros justos, de até 1,99% ao mês. Mas a grande inovação, que considero uma vitória da nossa pauta, é a trava de proteção, pois quem aderir ao Desenrola terá o CPF automaticamente bloqueado em plataformas de apostas por seis meses. O Estado estende a mão para tirar o cidadão da dívida, mas garante que esse fôlego financeiro não seja sugado pelo “tigrinho”.
Ouvir a população em cada município de Mato Grosso me deu a base empírica e territorial para atuar no Senado. Precisamos avançar mais.
Não podemos permitir que o lucro de poucos seja construído sobre a ruína de muitos. Enfrentar as três pragas da modernidade é uma urgência de saúde pública, de segurança e de proteção econômica. Precisamos ter a grandeza de proteger nossas famílias e é por isso que essa luta, que começou ouvindo as pessoas em Mato Grosso, agora vai ganhar força de lei em Brasília.
























