A expansão acelerada da população em situação de rua em Cuiabá voltou ao centro das discussões públicas durante audiência realizada na Câmara Municipal. O encontro reuniu representantes dos poderes Executivo e Judiciário, além de entidades da sociedade civil, para discutir alternativas que possam enfrentar um problema que vem impactando diretamente áreas sociais, econômicas e de segurança na capital mato-grossense.
Dados apresentados durante a audiência revelam um cenário preocupante. Atualmente, Cuiabá registra cerca de 1.803 pessoas vivendo em situação de rua. O número representa um crescimento expressivo quando comparado a 2013, período em que o município contabilizava pouco mais de 60 pessoas nessa condição.
O crescimento da população em situação de rua tem chamado a atenção especialmente porque Cuiabá e Várzea Grande formam o maior aglomerado urbano de Mato Grosso. Como principais polos econômicos, administrativos e de serviços públicos do estado, as duas cidades atraem diariamente pessoas de diversas regiões em busca de emprego, atendimento médico, assistência social e melhores oportunidades de vida. No entanto, parte dessa população encontra dificuldades para se estabelecer economicamente ou reconstruir vínculos familiares, o que contribui para o aumento da vulnerabilidade social.
Especialistas apontam que o fenômeno não possui uma única causa. Entre os fatores que mais influenciam o aumento da população em situação de rua estão a dependência química, os transtornos mentais, o desemprego, a perda de renda, conflitos familiares, a migração de pessoas vindas de outros municípios e estados, além da insuficiência de políticas permanentes de acolhimento e reinserção social. Por concentrar a maior rede de serviços públicos de Mato Grosso, Cuiabá acaba absorvendo grande parte dessa demanda social, realidade que também impacta diretamente Várzea Grande. Juntas, as duas cidades mais populosas do estado enfrentam um desafio crescente que exige respostas coordenadas do poder público.
O aumento tem gerado preocupação entre autoridades, comerciantes e moradores, principalmente pela ocupação crescente de espaços públicos em diversas regiões da cidade. Praças, viadutos e imóveis abandonados passaram a concentrar parte dessa população, ampliando os desafios relacionados à assistência social, saúde pública, segurança e ordenamento urbano.
O vereador Dilemário Alencar, responsável por propor a audiência, destacou que o problema não pode ser tratado apenas por meio de ações emergenciais. Segundo ele, a situação exige planejamento permanente e integração entre diferentes órgãos públicos para produzir resultados efetivos.
Durante o debate, representantes da Secretaria Municipal de Assistência Social defenderam a construção de políticas públicas capazes de promover acolhimento, reinserção social e recuperação da autonomia das pessoas que vivem nas ruas. A avaliação é de que o fenômeno está associado a múltiplos fatores, entre eles dependência química, desemprego, rompimento de vínculos familiares e vulnerabilidade econômica.
Na área da saúde, foi ressaltado o trabalho desenvolvido pelas equipes do Consultório na Rua, responsáveis por levar atendimento médico diretamente aos locais onde essa população se encontra. Os serviços incluem vacinação, acompanhamento de doenças, realização de curativos e encaminhamento para tratamentos especializados.
Também foram destacadas as ações dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem suporte a pessoas com transtornos mentais e dependência química. Técnicos enfatizaram que os tratamentos seguem os princípios da legislação vigente, respeitando a autonomia dos pacientes e sem a possibilidade de internações compulsórias sem respaldo legal.
Outro ponto abordado foi a criação de um plano integrado da Prefeitura de Cuiabá, envolvendo diversas secretarias municipais. A proposta busca estabelecer metas conjuntas, monitoramento permanente e definição clara das responsabilidades de cada órgão na execução das políticas voltadas à população em situação de rua.
Representantes do Poder Judiciário defenderam que a questão seja enfrentada de forma coletiva e contínua. A avaliação é de que o problema ultrapassa a esfera da assistência social e exige a participação coordenada de instituições públicas, entidades sociais e da comunidade.
Ao final da audiência, ficou definido que as propostas apresentadas serão encaminhadas aos órgãos competentes e servirão de base para futuras ações. Uma nova reunião deverá ocorrer em novembro para avaliar os avanços obtidos e verificar a efetividade das medidas implementadas.
O debate evidenciou que Cuiabá enfrenta um dos maiores desafios sociais de sua história recente. Especialistas apontam que a solução passa pela ampliação da rede de acolhimento, fortalecimento do tratamento para dependência química, qualificação profissional, geração de oportunidades de emprego e acesso à moradia, medidas consideradas fundamentais para devolver dignidade e perspectivas de futuro às pessoas que hoje vivem nas ruas da capital.























