A crise na saúde pública de Cuiabá ganha contornos dramáticos e expõe, mais uma vez, a fragilidade da gestão municipal. Sob o comando do prefeito Abilio Brunini (PL), 149 médicos que atuam nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) enfrentam um cenário de abandono financeiro: estão há até três meses sem receber salários.
O último pagamento, segundo relatos colhidos pela reportagem, ocorreu em 27 de fevereiro ainda referente ao mês de dezembro. Desde então, profissionais seguem sem receber pelos meses de janeiro, fevereiro e março. Em meio ao atraso, a Prefeitura afirma que os repasses estão em processo de regularização e promete quitar os valores na próxima semana. A justificativa, no entanto, não ameniza o impacto direto sobre quem está na linha de frente do atendimento.
“Estamos com três meses de salário atrasado na Páscoa, isso é um absurdo”, desabafou uma médica, sob condição de anonimato. O sentimento é de indignação generalizada entre os profissionais, que denunciam não apenas o calote, mas também o desmonte silencioso da estrutura de atendimento.
Enquanto os médicos ficam sem salário, a gestão municipal reduziu equipes nas UPAs. Dados das escalas mostram que, na primeira quinzena de março, houve corte de 28 plantões de 12 horas e outros 16 de 6 horas em comparação com o período anterior. Ao todo, pelo menos nove médicos foram retirados das unidades. A decisão foi justificada pela Prefeitura com base em diretrizes do Ministério da Saúde, que estabelecem o número mínimo de profissionais — limite que agora passa a ser seguido à risca, mesmo diante da crescente demanda.
O resultado é visível: unidades superlotadas, filas prolongadas e atendimento sob pressão. Na tentativa de explicar o colapso, o próprio Abilio Brunini gravou vídeo nas redes sociais atribuindo a crise ao aumento de casos de gripe e resfriado. A fala, porém, contrasta com a redução deliberada de plantões — uma equação que agrava ainda mais o cenário.
A instabilidade também atinge o comando da saúde municipal. A saída de Danielle Carmona marca mais um capítulo de turbulência administrativa. Em seu lugar assume Deise Bocalon, ex-secretária de Várzea Grande. Trata-se da terceira troca no comando da pasta em pouco mais de um ano — um indicativo claro de descontinuidade e falta de planejamento estratégico.
Na ponta, quem paga a conta é a população mais vulnerável, dependente do SUS. Sem médicos suficientes e com profissionais desmotivados e sem remuneração, o sistema entra em colapso progressivo. O atraso salarial, somado à redução de equipes e à instabilidade na gestão, desenha um quadro alarmante — em que a saúde pública deixa de ser prioridade e passa a ser tratada como variável de ajuste.
Em meio ao feriado e à promessa de regularização, resta saber se a gestão municipal conseguirá reverter o desgaste e evitar que a crise se transforme em um colapso irreversível. Até lá, médicos seguem trabalhando sem garantias — e pacientes, enfrentando as consequências de um sistema à beira do limite.
A prefeitura de Cuiabá diz que já está começando a pagar os servidores da saúde.e que o pagamento está sendo regularizado, com previsão de quitação no início da próxima semana, ao mesmo tempo em que realiza todos os procedimentos necessários em decorrência da transição de gestão.























