Deputado federal afirma que não teve acesso ao processo, diz ser alvo de perseguição política há 14 anos e questiona vazamento de investigação que corre sob sigilo judicial
O deputado federal Juarez Costa (Republicanos) reagiu pela primeira vez às acusações reveladas em delações premiadas de ex-executivos da empresa de saneamento Aegea e afirmou que volta a enfrentar uma situação que, segundo ele, se repete há mais de uma década. Durante entrevista concedida nesta quarta-feira (17), na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, o parlamentar negou conhecimento sobre o conteúdo da investigação, questionou o vazamento de informações protegidas por segredo de Justiça e classificou o episódio como mais um capítulo de uma perseguição política que teria começado ainda quando era prefeito de Sinop.
A manifestação ocorre após a divulgação de delações homologadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), nas quais cinco ex-executivos da Aegea afirmam que a empresa teria destinado aproximadamente R$ 30 milhões em propinas ao então prefeito de Sinop, além da entrega de um veículo BMW, em troca de supostos benefícios concedidos à concessionária responsável pelos serviços de água e esgoto do município. Os acordos foram firmados entre 2020 e 2021 e homologados em 2025 pelo ministro Raul Araújo.
Segundo os relatos apresentados pelos delatores, os pagamentos teriam ocorrido ao longo dos anos em que Juarez comandou a Prefeitura de Sinop e, em parte, teriam sido destinados a despesas eleitorais. Um dos ex-diretores da companhia relatou ainda a compra de uma BMW avaliada na época em cerca de R$ 330 mil. Outros executivos também apontaram supostos repasses em dinheiro vivo realizados em São Paulo, Cuiabá e Balneário Camboriú, além de mecanismos que teriam sido utilizados para abastecer um suposto caixa dois eleitoral.
Apesar da gravidade das acusações, Juarez afirmou que ainda não teve acesso aos autos e que soube da existência do novo procedimento apenas na terça-feira, ao desembarcar em Cuiabá.
“Eu cheguei ontem em Cuiabá e fiquei sabendo pela imprensa. Não conheço o processo, não vi vídeo, não vi documento e estou aqui respondendo sem sequer ter acesso ao conteúdo. Minha defesa está tentando obter os autos porque tudo corre em segredo de Justiça”, declarou.
Durante a entrevista, o deputado repetiu diversas vezes que esta seria a quinta ocasião em que seu nome é associado às mesmas acusações desde o início da concessão dos serviços de água e esgoto de Sinop.
“Pela quinta vez estou falando desse mesmo assunto. Foi em 2014, depois em 2018, em 2020, em 2022 e agora novamente. Sempre aparece em período eleitoral”, afirmou.
Juarez também voltou a defender a legalidade do processo que entregou os serviços de saneamento à iniciativa privada. Segundo ele, a concessão foi construída com ampla participação popular, audiências públicas e transparência administrativa.
Na avaliação do parlamentar, a origem da insatisfação que deu combustível às denúncias estaria relacionada à mudança do modelo de cobrança adotado pela concessionária.
Ele lembrou que, antes da privatização do sistema, a maioria dos consumidores pagava apenas uma taxa mínima fixa, independentemente do consumo.
“Sinop praticamente não tinha hidrômetros. Quando passou a cobrar pelo consumo real da água, muita gente começou a pagar mais e surgiram as reclamações. Mas aquilo era necessário para a cidade crescer”, argumentou.
O deputado também rebateu diretamente o valor mencionado nas delações. Segundo ele, a cifra de R$ 30 milhões não encontra sustentação lógica quando analisada dentro do contexto da época.
“Nós estamos falando de 14 anos atrás. Trinta milhões de reais naquela época comprariam praticamente dois sistemas completos de água e esgoto de Sinop. É um valor absurdo”, disse.
As delações, contudo, apontam que os pagamentos teriam ocorrido de forma parcelada ao longo de vários anos e envolveriam diferentes mecanismos operacionais. Entre os depoimentos, há relatos de entregas de dinheiro em espécie, supostas despesas eleitorais quitadas por terceiros e operações financeiras que teriam sido realizadas para beneficiar o então prefeito.
Outro ponto que chamou atenção na fala de Juarez foi a crítica ao vazamento das informações.
O parlamentar afirmou considerar estranho que detalhes de um processo sigiloso tenham chegado à imprensa antes mesmo de os investigados terem acesso formal ao conteúdo.
“Como um processo que está em segredo de Justiça vaza dessa forma? Isso também precisa ser explicado”, questionou.
Sem mencionar nomes, o deputado insinuou que adversários políticos estariam por trás da repercussão do caso e afirmou saber quem seriam os responsáveis pelas investidas contra sua trajetória.
“Tenho adversários políticos e sei quem são. Não preciso citar nomes. O importante é que sei exatamente de onde vêm esses ataques”, declarou.
Ao defender sua trajetória, Juarez destacou os resultados obtidos ao longo da carreira pública e afirmou que seu trabalho é reconhecido nos municípios mato-grossenses.
Segundo ele, mais de R$ 2,3 bilhões em investimentos foram destinados a 132 municípios do estado por meio de articulações realizadas durante seus mandatos em Brasília.
“Tem algum prefeito que possa dizer que eu pedi algo em troca? Tem alguém que possa falar em rachadinha? Não tem. Meu trabalho é resultado e entrega”, afirmou.
O deputado também ressaltou que jamais teve contas eleitorais rejeitadas pela Justiça Eleitoral.
“Estou no oitavo mandato. Nenhuma campanha minha foi reprovada”, acrescentou.
A nova delação recoloca sob os holofotes um dos contratos mais importantes da história recente de Sinop. Assinado em 2014, o acordo transferiu os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário para a iniciativa privada, com a promessa de universalização dos serviços ao longo de três décadas. À época, o município possuía cobertura limitada de água tratada e praticamente não contava com rede de esgoto.
Enquanto os detalhes da investigação permanecem sob sigilo, a repercussão política do caso já movimenta os bastidores de Mato Grosso. De um lado, delações homologadas pela Justiça apontam supostos pagamentos milionários e vantagens indevidas envolvendo a concessão de saneamento em Sinop. De outro, Juarez Costa sustenta que nunca praticou qualquer irregularidade, afirma desconhecer o conteúdo da investigação e repete a tese que marcou sua fala na Assembleia Legislativa.
























