A crise envolvendo a Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá ganhou novos capítulos nesta quarta-feira após o ex-secretário da pasta, Amauri Monge, rebater duramente as declarações do prefeito Abilio Brunini sobre um suposto rombo superior a R$ 80 milhões nas contas da Educação da capital.
Em entrevista concedida após a repercussão das denúncias feitas pelo prefeito, Amauri negou qualquer irregularidade durante sua gestão, classificou as acusações como “falácias” e afirmou que a Prefeitura enfrenta, na verdade, um grave problema fiscal que estaria sendo mascarado por uma “cortina de fumaça”.
A declaração ocorre um dia depois de Abilio anunciar publicamente que pretende acionar a Polícia Federal, a Polícia Civil e o Tribunal de Contas do Estado para investigar possíveis irregularidades na Secretaria de Educação. O prefeito afirmou que o atual secretário da pasta, Reginaldo Teixeira, teria identificado o déficit logo após assumir o comando da secretaria no início de 2026.
Amauri, que deixou o cargo há menos de dois meses, afirmou que todas as decisões tomadas durante sua gestão eram de conhecimento do prefeito e passaram pelos trâmites técnicos, jurídicos e administrativos da Prefeitura.
“Não existe contrato de R$ 80 milhões. Isso é um absurdo. Não existe esse contrato. Todas as aquisições passaram pela Secretaria de Administração, pela Procuradoria Geral do Município e seguiram o fluxo administrativo correto”, afirmou.
O ex-secretário também reagiu às declarações de Abilio sobre supostas compras excessivas de materiais pedagógicos e livros que teriam custado até R$ 800 a unidade. Segundo ele, as afirmações demonstram “desconhecimento sobre educação moderna”.
“Nem existe livro de R$ 800 no mercado. Isso é falácia de quem não entende educação moderna. Hoje não se compra apenas livro. Você compra solução pedagógica, que inclui material do aluno, material do professor, plataformas digitais, formação continuada e acompanhamento pedagógico”, disse.
Amauri ainda defendeu as aquisições realizadas pela Secretaria de Educação e afirmou que os materiais seguiam diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), incluindo conteúdos voltados à educação financeira, socioemocional, meio ambiente e povos originários.
Outro ponto abordado pelo ex-secretário foi a acusação do prefeito sobre materiais produzidos com inteligência artificial. Segundo Amauri, as editoras contratadas possuem reconhecimento nacional e internacional.
“É um absurdo fazer esse tipo de ilação. As editoras que forneceram esses materiais são renomadas. Basta verificar a qualidade das soluções pedagógicas adquiridas”, rebateu.
Durante a entrevista, Amauri também trouxe à tona uma série de problemas financeiros enfrentados pela Secretaria de Educação ao longo de 2025. Segundo ele, a pasta operou durante todo o ano sob dificuldades causadas pela falta de repasses constitucionais equivalentes aos 25% obrigatórios da Educação.
Ele afirmou que fornecedores deixaram de receber pagamentos milionários, empresas enfrentam risco de falência e serviços essenciais chegaram perto de colapsar.
“A empresa de transporte escolar está sem receber milhões. Empresas de uniforme e fornecedores estão sofrendo. Houve bloqueio de frota de veículos por falta de pagamento. Isso tudo foi comunicado oficialmente à gestão”, declarou.
Amauri citou ainda que a própria equipe econômica da Prefeitura teria reconhecido, em audiência pública na Comissão de Educação da Câmara Municipal, que mais de R$ 120 milhões referentes aos recursos constitucionais da Educação não teriam sido repassados corretamente no ano passado.
O ex-secretário afirmou que a situação caracteriza uma espécie de “pedalada fiscal”, embora tenha ponderado que caberá ao Tribunal de Contas avaliar eventual irregularidade.
“A pedalada fiscal, por si só, não é automaticamente ilegal. O problema é quando você não consegue quitar os compromissos assumidos e isso começa a gerar colapso financeiro na secretaria”, afirmou.
Em outro momento da entrevista, Amauri sugeriu que as acusações feitas pelo prefeito seriam uma tentativa de desviar o foco da crise financeira enfrentada pela administração municipal.
“É muito fácil falar em desvio quando a Prefeitura enfrenta dificuldades fiscais em praticamente todas as secretarias. Isso é uma tentativa clara de criar uma cortina de fumaça sobre os reais problemas financeiros da gestão”, disparou.
Amauri também negou qualquer motivação política envolvendo sua saída da Secretaria de Educação. Ele confirmou que deixou o cargo para ajudar na articulação política da pré-campanha do secretário estadual Alan Porto à Assembleia Legislativa e aproveitou para reafirmar sua ligação com o grupo político do governador Otaviano Pivetta e do ex-governador Mauro Mendes.
“Tenho orgulho de ter trabalhado seis anos na gestão Mauro Mendes e de ter ajudado Cuiabá. Não posso aceitar acusações sem provas ou ilações irresponsáveis”, disse.
O ex-secretário afirmou ainda que está à disposição das autoridades para prestar qualquer esclarecimento e disse não temer eventuais investigações.
“Quem não deve não teme. Tudo o que foi feito está documentado”, concluiu.
Enquanto a crise se aprofunda, o caso promete ganhar novos desdobramentos políticos, administrativos e jurídicos nos próximos dias, ampliando a tensão entre integrantes da atual gestão municipal e ex-membros da administração da Educação da capital.
























