O Fórum de Cuiabá volta a concentrar nesta terça-feira (21) as atenções de Mato Grosso com o início de um dos julgamentos mais aguardados dos últimos anos. O empresário Carlos Alberto Gomes Bezerra, conhecido como Carlinhos Bezerra, filho do ex-deputado federal Carlos Bezerra, será submetido ao Tribunal do Júri acusado de matar a tiros a ex-companheira, Thays Machado, de 44 anos, e o então namorado dela, Willian César Moreno, de 30 anos. O caso, ocorrido em janeiro de 2023, ganhou repercussão nacional pela violência do crime, pela influência política da família do acusado e pela longa batalha judicial travada antes da chegada do processo ao plenário do júri.
A sessão ocorre após sucessivas tentativas da defesa para impedir ou adiar o julgamento. Nas últimas semanas, os advogados apresentaram uma série de medidas judiciais alegando cerceamento do direito de defesa, necessidade de exame de insanidade mental, pedido de transferência do julgamento para outra comarca e, mais recentemente, sustentaram que não tiveram tempo suficiente para analisar cerca de 109 gigabytes de provas digitais reunidas durante a investigação. Todos os pedidos foram rejeitados pela Justiça, que concluiu não haver irregularidades capazes de impedir a realização do júri.
Segundo a denúncia do Ministério Público, o relacionamento entre Carlos Alberto e Thays havia terminado meses antes do crime. A acusação sustenta que o empresário não aceitava o fim da relação e passou a monitorar a rotina da ex-companheira. Quando Thays iniciou um novo relacionamento com o empresário paulista Willian César Moreno, a situação teria se agravado.
Willian havia viajado de São Paulo para Cuiabá para reencontrar Thays. Conforme a investigação, os dois desembarcaram no Aeroporto Internacional Marechal Rondon, em Várzea Grande, e passaram a ser acompanhados pelo acusado desde aquele momento. Imagens de câmeras de segurança, cruzamento de dados telefônicos e outros elementos técnicos integram o conjunto probatório apresentado pelo Ministério Público.
Horas depois, o casal seguiu até o edifício onde mora a mãe de Thays, no bairro Consil, em Cuiabá. A intenção era apenas guardar um veículo na garagem antes de seguir viagem. No momento em que deixavam o prédio e aguardavam um carro por aplicativo, os dois foram surpreendidos pelos disparos.
De acordo com a acusação, Thays foi atingida por diversos tiros e morreu ainda no local. Willian tentou correr para escapar do atirador, mas também foi baleado e caiu poucos metros adiante, sem chance de sobrevivência. A cena provocou forte comoção e mobilizou equipes da Polícia Militar, Polícia Civil e Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec).
Após o crime, Carlos Alberto deixou o local e foi localizado poucas horas depois em uma fazenda da família, no município de Campo Verde. Desde então, passou a responder ao processo criminal, permanecendo preso preventivamente, embora tenha obtido prisão domiciliar em determinado momento, benefício posteriormente revogado pela Justiça por descumprimento das condições impostas. Atualmente, ele está custodiado na Penitenciária Ahmenon Lemos Dantas, em Várzea Grande.
Ao longo de mais de três anos de tramitação, o processo foi marcado por uma intensa disputa jurídica. A defesa apresentou diversos recursos buscando modificar o andamento da ação. Entre eles, um pedido para que o julgamento fosse realizado fora de Cuiabá, sob a alegação de que a ampla repercussão do caso poderia comprometer a imparcialidade dos jurados. O Tribunal de Justiça rejeitou o pedido, entendendo que não havia elementos concretos para justificar a mudança de comarca.
Em outra investida, os advogados requereram a instauração de incidente de insanidade mental, sustentando que exames particulares indicariam a necessidade de nova avaliação psiquiátrica do acusado. A juíza Mônica Catarina Perri Siqueira considerou o pedido intempestivo e afirmou que não existiam elementos capazes de colocar em dúvida a capacidade mental do réu, mantendo o julgamento na data prevista.
Mesmo às vésperas do júri, a defesa voltou a insistir no adiamento da sessão. Alegou que somente recentemente recebeu acesso a um volume expressivo de provas digitais, composto por imagens de câmeras de segurança, extrações de celulares e outros arquivos eletrônicos. Também sustentou dificuldades de acesso a processos relacionados à prisão do acusado. A magistrada, entretanto, concluiu que o material foi disponibilizado dentro do prazo legal e que eventual demora na análise não poderia ser atribuída ao Poder Judiciário. Com isso, manteve o julgamento para esta terça-feira.
A denúncia do Ministério Público atribui ao empresário a prática de feminicídio contra Thays Machado e homicídio qualificado contra Willian César Moreno, apontando qualificadoras como motivo torpe, recurso que dificultou a defesa das vítimas e outras circunstâncias que serão analisadas pelos jurados durante a sessão. Caberá ao Conselho de Sentença decidir, com base nas provas produzidas ao longo da instrução e nos debates entre acusação e defesa, se o réu deverá ser condenado ou absolvido.
O julgamento é acompanhado com expectativa por familiares das vítimas, representantes do Ministério Público, advogados, integrantes do sistema de Justiça e pela sociedade mato-grossense. Mais de três anos após o crime que abalou Cuiabá, o caso chega ao momento decisivo, quando sete jurados terão a responsabilidade de definir o desfecho de um processo que se tornou um dos mais emblemáticos da história recente de Mato Grosso.

























